:: Colunista - Celso Gaudêncio
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18.05.2010 as hs

  Celso Gaudêncio
Pecuarista de Jacarezinho (PR)


A bovinocultura a pasto se ressente da diminuição do consumo

A atual crise econômica restringe consideravelmente o consumo de carne bovina, pois a carga tributária brasileira atinge forte com o cutelo os habituais consumidores de carne, os quais são pressionados pela diminuição drástica da renda.

O compromisso de pagar "impostos" e "taxas" de toda ordem, no primeiro quadrimestre de 2010, afetou a renda e transmutou o consumo dos alimentos, deixando de lado a carne bovina. O fenômeno se perpetua, pois os impostos baixam circunstancialmente em alguns setores atingidos pela crise econômica, mas as "baixas" se esquivam dos alimentos e dos remédios. Daí surge um Brasil singular, do ponto de vista do desalinhamento na política econômica conduzida nos últimos governos.

A criação de gado a pasto surge fulgurante, pois as condições do clima favoreceram a produção de carne com qualidade natural. No entanto, o consumo simplesmente se derruiu e a exportação míngua com o real supervalorizado.

A recuperação do preço do boi, no ultimo mês do quadrimestre, ainda não oferece rentabilidade ao setor. A baixa foi contida pelo sábio escalonamento da oferta e pelo retardamento sistemático da reposição do estoque, feitas pela pecuária a pasto. O único ponto positivo no período foi a remuneração obtida pelo criador e fornecedor de bezerros e de bois magros de forma adequada. Espera-se que continue assim.

O fenômeno contrasta vigorosamente com a renda subsidiada da população. Renda esta que é praticamente anulada em razão da enorme tributação incidente sobre a proteína animal. A grande maioria da população não se beneficia da excelente produção de carne, que continua inacessível à quase totalidade dos brasileiros.

E o pecuarista, sem rumo, ainda persiste em produzir.

Mas diante das incertezas, das ameaças ambientais e fundiárias, perdendo sempre espaço jurídico e enfrentando a exclusão aos direito humanos e à propriedade, ele está se constituindo num pária da nação.

A única saída é continuar adubando apenas superficialmente os solos de pastagem, mas obrigatoriamente começar a diminuir a área de renovação dos mesmos, racionalizar o uso de produtos sanitários e de suplementação de alimentos no coxo e, principalmente, diminuir paulatinamente o plantel e a mão de obra.

É preciso ficar menor sem enfraquecer, até que, novamente, ocorra o equilíbrio entre a demanda econômica e a oferta, para somente depois voltar a crescer. O ciclo pecuário necessita urgentemente de ajustes na oferta para que não sucumba.

No próximo quadrimestre, o preço do boi vai estar à mercê da crescente terminação de bovinos, na chamada integração agropecuária, "empurrando" os confinadores para o último quadrimestre do ano. Nesse confronto, a pecuária a pasto deve também ofertar animais nesse período, para mostrar sua força em fornecer animais prontos, em qualquer momento do ano.

A diminuição do plantel não significa, de modo algum, o esmorecimento nos cuidados no manejo adequado dos animais e dos pastos.

Caso a pressão baixista persista, maior será o tempo de ajuste, desfavorecendo a intensificação produtiva e o grau tecnológico a ser adotado em alguns fatores de produção.

Do exposto, os gargalos a serem seriamente considerados são, pela ordem: alta tributação, super oferta, câmbio baixo e crescente terminação de animais pelos frigoríficos. Somente se esses quatro fatores condicionantes forem solucionados, a bovinocultura voltará à normalidade.

Caso não ocorram mudanças no modelo econômico e no comportamento do governo em relação ao pecuarista, poderá haver ruptura na produção, com riscos ao desabastecimento de carne e desalojamento de grandes contingentes do campo.

O momento é para que o pecuarista pense em diversificar os investimentos fora da porteira, sem desistir da pecuária.
 

 
 
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