:: Colunista - Argemiro Luís Brum
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02.03.2010
O efeito colateral chegou
 

02.03.2010 as hs

  Argemiro Luís Brum
Atividade: Administrador de Empresa Histórico profissional Professor formado pela UNIJUI em Administração de Empresas e Tecnólogo em Cooperativismo Mestre e Doutor em Economia Internacional respectivamente pelo IAMM (Montpellier-França) e EHESS (Paris


O efeito colateral chegou

Contrariando o lugar comum usado neste país, os primeiros dois meses de 2010 foram ricos em acontecimentos econômicos, confirmando que o ano começa mesmo muito antes do Carnaval. O que alertávamos ainda em 2009 se confirma!
 
Os efeitos colaterais do tratamento usado para combater a crise econômica global já estão presentes em nosso dia-a-dia. O estouro do déficit público em um grupo de países da União Europeia está aí para prová-lo. A crise junto aos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), da sigla em inglês, traz à tona um sério problema.
 
No afã de combater a crise, os países injetaram dinheiro na economia, aumentando seus déficits orçamentários e, por conseqüência, seu déficit público. E a conta chegou para o mundo! Na Europa, enquanto o Tratado de Maastrich de 1992, que deu origem ao euro, estabelece que o déficit orçamentário para os países da zona euro seja de no máximo 3% do PIB, e que a dívida pública deva ficar abaixo de 60% do PIB, a Grécia registrou, no ano passado, um déficit no orçamento de 12,7% e uma dívida pública total de 129,4% do PIB, caracterizando a “quebra” do país.
 
E os demais Estados acima citados não estão muito longe destes números. O déficit público mundial (receitas menores que despesas) ultrapassou pela primeira vez a casa do US$ 1,0 trilhão em 2009. Assim como era importante os governos injetarem na economia recursos para ela reagir à crise, também era importante ter cuidado com os efeitos colaterais desse processo.
 
Um dos mais importantes desses efeitos, portanto, se cristaliza agora e causa novas preocupações internacionais: todo o dinheiro injetado na economia pelos Estados foi tomado por empréstimo aos contribuintes (pagadores de impostos), e aumentou de forma brutal a dívida dos países. 
 
O efeito colateral chegou (II)
 
Nos EUA a dívida pública total bateu em US$ 13 trilhões ou o equivalente a 90% do PIB do país. Como resultado, juros mais elevados para financiar a dívida e crescimento econômico mais lento nos próximos anos, com seus efeitos sobre o resto do mundo.
 
Outro caminho é aumentar os impostos visando o financiamento da dívida. No Brasil a situação igualmente se agrava, embora em números ainda administráveis. Porém, somente em gastos com pessoal no setor público deveremos atingir 5,12% do PIB em 2010, sendo o mais elevado dos últimos 15 anos.
 
Assim, acelerada pela crise global e pelas eleições, nesse início de ano se constata que a gastança governamental cresce numa velocidade inquietante. Enquanto a arrecadação recuou 7,8% apenas entre 2008 e 2009, o número de servidores públicos no poder executivo, entre 2003 e 2009, cresceu 19,2%; o déficit da previdência salta de R$ 26,4 bilhões em 2003 para R$ 42,8 bilhões em 2009, sendo projetado em R$ 52 bilhões para 2010; até setembro de 2009, comparando com igual período de 2008, os gastos públicos cresceram 16%; o superávit primário, um dos eixos do tripé de sustentação da estabilidade, que era de 4,27% do PIB em 2003, caiu para apenas 1,56% em 2009; a dívida pública, que vinha recuando desde 2003, teria dado um salto para 43,3% do PIB em 2009 e os juros tendem a subir, com a Selic passando dos 8,75% para 11,75% no final de 2010.
 
Ou seja, se o Brasil não cuidar, entrará pelo caminho grego. Por enquanto, a salvação tem sido a forte entrada de dinheiro externo, que financia o crescimento econômico. Mas quando o juro internacional subir, ou aumentamos o nosso juro ou o dinheiro externo diminuirá, freando a recuperação e exigindo que o Estado seja austero em seus gastos.
 
É nesses momentos que se tem a dimensão da qualidade de um governo!
 

 
 
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