:: Colunista - Xico Graziano
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07.04.2009 as hs

  Xico Graziano
Secretário Estadual do Meio Ambiente do estado de São Paulo


Coelho Estrangeiro

Coelho, definitivamente, não é animal ovíparo. Mesmo assim, a Páscoa apela ao macio bichinho para atrair seu comércio de ovos de chocolate. O simpático engodo mistura história, gula e fé. Semana Santa. 

A origem da Páscoa remota aos hebreus, quando significava um ritual de passagem. Na cultura judaica, nela se comemorava a libertação e fuga do povo oprimido. Entre os cristãos, desde sempre, a data celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Tudo bem.
O que o coelho tem a ver com isso? Por ser muito prolífero, o orelhudo animal há muito representa a fertilidade. Na Antiguidade, época de elevada mortalidade humana, o nascimento e a esperança da vida nova se reverenciava. E o ovo, entra aonde? 

Contam-se várias histórias. No início, eram decorativos, não para ser comidos. Coloridos, valiam presentes para comemorar a estação do ano, a vida brotando da casca após o gelado inverno. Ostera, a deusa da primavera, aparecia na Europa medieval como uma mulher segurando um ovo na mão, observando um coelho saltitante ao seus pés. Fertilidade e renascimento.
Um dia, no século 18, os franceses inventaram de fabricar ovos de chocolate. A iguaria precisou, séculos antes, da descoberta do cacau na recém descoberta América. Foi Cristovão Colombo quem levou, em 1502, as primeiras sementes de cacau para a Europa, entregando-as ao rei Fernando II. Um sucesso. 

Utilizado nas civilizações maia e asteca, o “tchocolath" era bebida sagrada e medicinal, servindo aos rituais religiosos. Até as sementes de cacau tinham valor para os maias, servindo como moeda. Um zontli era formado por 400 sementes, enquanto o portador de oito mil sementes tinha na verdade um xiquipilli. Cada coisa! 

De origem amazônica, o cacaueiro cresce à sombra, em meio à densa vegetação, formando uma árvore de médio porte. Os frutos, grandes e escuros, penduram-se de seus galhos. Cada fruto contém em média 50 sementes, cobertas por uma polpa branca. Secas, moídas e torradas, as amêndoas fornecem o delicioso chocolate. 

A domesticação do cacaueiro ocorreu apenas em 1746. Até então, seus frutos se coletavam nas árvores nativas da selva ou em plantios incipientes verificados nas várzeas. No Brasil, a Bahia se tornou o principal pólo produtor de cacau já na época da Independência (1822). Nascido na floresta amazônica, o cacaueiro adotou a Mata Atlântica como lar.
Na capitania de Ilhéus o cultivo do cacau embasou, durante mais de um século, um ciclo econômico de vulto, cujo apogeu ocorre no início dos anos 1900. O poder dos coronéis, a sociedade, primeiro escravocrata, depois liberta, a boemia e o suor da jornada, o contraste da opulência com a miséria, os sonhos e as desilusões dessa rica e desigual sociedade emprestaram o cenário dos magníficos romances de Jorge Amado, especialmente Cacau (1933), São Jorge dos Ilhéus (1944) e Gabriela, Cravo e Canela (1958). 

Os importadores de cacau, porém, reagiram contra o domínio brasileiro. Do solo baiano, a cacauicultura encontrou boa moradia nos trópicos da África e da Ásia. Líder inconteste durante décadas, o Brasil ocupa hoje apenas a quinta posição no ranking cacaueiro. O maior produtor mundial é a Costa do Marfim, seguido por Gana e Indonésia. Quem diria.
A concorrência externa complica a economia da região cacaueira em meados do século passado. O aumento da oferta mundial faz cair os preços, ameaçando a rentabilidade da lavoura. Em 1957 o governo brasileiro cria a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão encarregado da pesquisa e do apoio à produção nacional. A ordem era modernizar o sistema de produção.
O sucesso da intervenção estatal, porém, se mostrou relativo. Nunca é fácil alterar usos e costumes, muito menos na agricultura. A oligarquia cacaueira ainda vivia iludida pela glória do passado. A cultura produtiva tradicional repele as mudanças e freia o progresso. O poder político sobrevive alimentado pelos subsídios públicos. 

Assim, amparado pelo Estado, a economia local, mesmo debilitada, vai se mantendo até chegar a globalização e se abrirem as fronteiras da economia mundial. O país começa, pasmem, a importar chocolate. No começo, exporta matéria prima e compra chocolate pronto. Depois, passa a trazer de fora, inclusive, pasta bruta de chocolate.
Foi em 1989 que aconteceu o pior. A doença conhecida como “vassoura de bruxa” entra, criminosamente, no Brasil. O terrível fungo ataca as plantações, se expande nos galhos e seca os ponteiros das árvores. Dizima as lavouras. Os prejuízos foram terríveis. 

A produção de amêndoas decresce de 460 mil toneladas, em 1986, para 170 mil toneladas em 2003. Estima-se que 200 mil empregos tenham sido perdidos, com perdas de US$ 1,4 bilhão. Aumenta o empobrecimento regional. A doença vegetal causa uma tragédia econômica.
Há uma década os agrônomos da Embrapa, junto com a Ceplac, desenvolvem novas técnicas de plantio, baseadas em clones vegetais resistentes à vassoura de bruxa. As novas mudas são enxertadas na copa das plantações adultas, que se revigoram. Mas o declínio da produção está patente.
Resultado: um terço do chocolate consumido no país agora vem do estrangeiro. Pois é. Boa parte dos ovos de Páscoa dessa semana santa traz, infelizmente, a marca enrustida do fracasso. Uma ironia da história. 

Resta uma boa notícia. Plantado à meia sombra, por debaixo da floresta, o abandono das lavouras de cacau se compensa na regeneração da Mata Atlântica baiana. Ilhéus e, principalmente, Itacaré, tornam-se pólos importantes de recuperação ambiental, favorecendo o ecoturismo.
Os coelhos, que adoram um mato, aprovam. Jorge Amado certamente se impressionaria.


 

 
 
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