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02.04.2009 as 13:38 hs

Pecuária
Reprodução Segura


Para evitar a disseminação de doenças nos rebanhos, os cuidados com a saúde devem ser adotados antes mesmo do nascimento dos animais. Durante a monta ou a inseminação, o controle é fundamental, já que o sêmen pode ser um transmissor importante de patologias para os fetos e para as vacas. "O produtor deve procurar sêmen de qualidade comprovada, pois, se o material coletado de um touro estiver contaminado, pode afetar centenas de vacas, enquanto na monta natural, o número de animais infectados é menor.

Além disso, é preciso evitar práticas como o empréstimo de touros para a cobertura das vacas, porque isso favorece a disseminação de doenças", afirma Maristela Pituco, pesquisadora do Instituto Biológico de São Paulo, responsável pela análise de sêmen de aproximadamente 90% dos centros especializados na comercialização do produto. Por mês, mais de 4 mil amostras são avaliadas na instituição, para a detecção de vírus, bactérias ou outros agentes patológicos nos gametas masculinos. "Os resultados têm indicado que o sêmen bovino comercializado no Brasil tem um padrão sanitário muito bom e não deixa nada a desejar em relação a outros países", diz ela.

VIROSES As doenças provocadas por vírus e transmitidas pelo sêmen são a diarréia viral, a rinotraqueíte infecciosa, a febre aftosa, a estomatite vesicular, a leucose e a língua azul - as quatro últimas raramente detectadas no Brasil. Das viroses, a diarréia viral tem grande incidência no país."Com bastante freqüência, isolamos o vírus em fetos abortados", confirma Maristela. .A doença pode apresentar vários quadros clínicos ou nem sequer se manifestar.

O principal problema ocorre quando o bezerro é afetado na barriga da mãe e acaba nascendo permanentemente infectado. "Esse animal será o disseminador da doença dentro do rebanho", diz a pesquisadora. As centrais de inseminação fazem controles para evitar o ingresso de animais permanentemente infectados nas propriedades. Quando entram na quarentena, os bovinos têm o sangue analisado - procedimento que é repetido pouco antes do fim do período de isolamento. Se o resultado for positivo, nos dois testes, eles não são aproveitados. Além da morte fetal e do nascimento de bezerros permanentemente infectados, os animais também podem apresentar defeitos congênitos.

A contaminação ocorre por contato com outros bovinos, pela ingestão de alimentos infectados e pelo sêmen.Há vacina para evitar a proliferação da doença, que deve ser ministrada nas fêmeas de reposição entre 8 e 12 meses de idade, com repetição próxima à monta. A rinotraqueíte infecciosa bovina é causada por um herpes vírus. Alguns sintomas são lesões nasais, febre, depressão, apatia e queda na produção. O tratamento é à base de antibióticos, que devem ser receitados por um veterinário.

O diagnóstico é feito por meio do isolamento do agente e de sorologia. As demais doenças integram a relação de análises que precisam ser feitas para a comercialização de sêmen no mercado internacional. Nas nas propriedades brasileiras, no entanto, elas raramente se manifestam. Teoricamente, a aftosa não representa qualquer problema para o Brasil, já que o país é considerado zona livre da doença com vacinação. "Qualquer doença vesicular precisa ser imediatamente comunicada,e devem ser tomadas as providências sanitárias para evitar a sua proliferação, como isolar os animais infectados", afirma Maristela.

BACTERIANAS
Entre as doenças bacterianas transmissíveis pelo sêmen,as principais são a campilobacteriose genital bovina, a leptospirose e a brucelose.A primeira é uma doença sexualmente transmissível, provocada pela Campylobacter fetus, subespécie veneralis. "A bactéria causa infertilidade temporária com repetição de cios e abortamentos em cerca de 20% das novilhas", afirma Eliana Scarcelli Pinheiro, pesquisadora do Instituto Biológico. Infecções sucessivas da fêmea podem levá- la à esterilidade.

 

Quanto ao macho, ele não sofre mudança na libido e não há alteração na capacidade de fecundação do sêmen. Neles, as bactérias se hospedam nas criptas das mucosas peniana e prepucial,sendo que os mais velhos (acima de quatro anos) portam a bactéria por mais tempo. "A maior ou menor capacidade de transmissão da doen- ça por um reprodutor está diretamente ligada à quantidade de microorganismos na cavidade prepucial.

A fêmea se infecta no cio, por meio da monta natural ou com a utilização de sêmen contaminado na inseminação, bem como pelo emprego de aparelhos contaminados, como a vagina artificial e espéculos", afirma Eliana. Quando chega ao útero, a Campylobacter fetus promove alterações no endométrio da vaca, o feto é impedido de se alojar e acaba sendo abortado.

As vacas infectadas podem se curar e retomar a fertilidade se forem deixadas em repouso sexual. As novilhas indicam o problema, pois são mais suscetíveis do que as vacas adultas, e, se não se curarem, podem se tornar portadoras e, portanto, mantenedoras da enfermidade no plantel. A doença pode ser prevenida, como acontece em alguns outros países, por meio da vacinação. Segundo Eliana, a vacina apenas previne a doença, mas não cura: somente com a associação da vacina como tratamento pode se conseguir curar o animal e proteger o rebanho da reinfecção.

As fêmeas devem ser vacinadas a partir de um ano de vida e a imunidade é de cinco a oito meses. No macho, o tratamento é feito com antibióticos - aplicados na cavidade prepucial e sistemicamente - como a estreptomicina e a penicilina.Nas vacas o repouso sexual tem sido suficiente para que ela recupere a fertilidade dentro de um período de quatro a seis meses.Mas, se for preciso aplicar medicação, essa deve ser a mesma utilizada nos machos. "A melhor forma de reduzir os problemas com a campilobacteriose é a adoção da inseminação artificial com sêmen negativo para a doença", diz Eliana.

A leptospirose é outra patologia que pode ser transmitida entre os bovinos por meio do sêmen. A via venérea assume importância porque as Leptospira alojam-se também nos testículos, na vesícula seminal e epidídimo no macho e nas trompas e, eventualmente, no útero das fêmeas. O problema é que os animais adultos praticamente não apresentam sintomas clínicos, sendo que apenas problemas reprodutivos indicam a infecção. Já nos jovens, durante quatro ou cinco dias, pode ocorrer uma febre rápida, perda de apetite, apatia, fraqueza, conjuntivite, anemia e, ocasionalmente, diarréia.A morte do animal pode ocorrer em poucos dias,dependendo do tipo leprospiras que o infectou.

Conforme o estágio da gestação,o abortamento acontece de uma a três semanas depois que o animal se infecta ou os bezerros podem nascer fracos e congenitamente infectados. Assim, o acompanhamento reprodutivo é importante ferramenta para detectar a leptospirose no rebanho.As vacas atingidas pela doença podem sofrer infertilidade?e apresentar redução na produção de leite, com sinais de mastite e aumento nas células inflamatórias.

Nos casos em que ocorrem surtos de abortos, por causa da doença, a recomendação é tratamento, seguido de vacinação, mas sempre acompanhadas de medidas profiláticas, principalmente de manejo sanitário e ambiental .A vacinação deve começar aos quatro meses,com duas doses em intervalos de 30 dias e revacinação anual. Nos reprodutores em estação de monta recomenda- se a vacinação semestral. As vacas devem ser vacinadas nos dois últimos meses de gestação e antes da cobertura.

As vacinas polivalentes são as mais recomendáveis. Se houver surto da doença, podem ser adotadas algumas medidas para evitar ou minimizar a disseminação: isolar os animais?infectados e tratá-los com antibióticos; examinar uma boa amostra ou a totalidade dos animais no início do surto e repetir o exame um mês depois; isolar os soropositivos e tratá-los; isolar os animais prenhes do rebanho; não introduzir novos animais por pelo menos seis meses do controle do surto e manter separados,pelo mesmo período, o os animais sadios e os contaminados.

Medidas como descontaminar e remover excretas e fetos abortados, providenciar água e alimento sabidamente livres de contaminação, drenar pastos, desinfetar galpões e sala de ordenha, impedir acesso de roedores à água ou alimentos, promover a desratização, e utilizar sêmen comprovadamente negativo para leptospirose, são medidas fundamentais para evitar a disseminação da doença.

A brucelose é uma doença que ganhou atenção especial do governo brasileiro a partir da criação do programa Nacional de Erradicação e Controle da Brucelose e da Tuberculose, em 2001.A doença é uma zoonose de evolução crônica e tem como sinais mais comuns o abortamento - geralmente no terço final da prenhes - a retenção de placenta, o nascimento de bezerros fracos, infecção de útero, corrimento vaginal e infertilidade, segundo a pesquisadora Lília Paulin, do Instituto Biológico. "Bezerros filhos de vacas brucélicas podem nascer saudáveis, mas as mães continuam abrigando a bactéria e transmitido a doença", diz.

Dados fornecidos por ela indicam que a infecção leva a um crescimento do intervalo entre partos de 11,5 meses para 20 meses ,a um aumento de 30% na taxa de reposição dos animais pelo nascimento de 15% menos de bezerros, e a uma queda na produção de leite de 10% a 24%, devido às mudanças no período de lactação normal. A transmissão da doença de um touro para uma vaca, por monta natural, é mais difícil. "O pH da vagina da vaca mata os microorganismos.

Já na inseminação, se o sêmen estiver infectado,a contaminação é quase certa,pois o material será despejado numa parte mais profunda do aparelho reprodutor" ,explica Lilia.Segundo ela, há casos em que um touro infectado acaba rompendo uma cerca ou conseguindo passar para propriedade vizinha e acaba transmitindo a doença para outro rebanho, pela monta ou simplesmente por deixar resíduos no alimento ou água.Aborto, restos de placenta ou corrimento vaginal da fêmea recém- parida contém alta concentração de bactérias e os animais se contaminam ao lamberem esses produtos ou a área genital das vacas excretoras ou ingerindo as Brucellas presentes na água e/ou nos alimentos.

O tratamento não é recomendado, uma vez que a doença quase nunca desaparece por completo. Por isso, outra medida importante para evitar a disseminação é deixar os animais recém-adquiridos em quarentena, em observação, sendo testados quando chegam à propriedade e depois de 30 dias." O período de isolamento permite a detecção da brucelose nos animais que estavam no período de incubação da doença quando foram comprados" diz Lília. O teste feito para saber se o animal está infectado é o Antígeno Acidificado Tamponado - AAT, que é sensível (cerca de 95% de acerto), barato e prático.Nos casos em que o resultado for positivo, os animais podem passar por testes mais específicos.

"A vacinação é feita apenas em bezerras, entre o terceiro e o oitavo mês de vida, usando-se a B-19, que contém uma cepa da Brucella. A aplicação deve ser feita por um veterinário", afirma a pesquisadora. Em vacas mais velhas, homens e outros animais, a vacina pode ser patogênica e contribuir com a evolução da doença.

Quem trabalha com o rebanho pode, também, contrair a doença, por meio do contato direto da pele ou mucosas com animais abortados e corrimento vaginal das fêmeas doentes,ou quando são manipuladas as carcaças dos animais abatidos. Alimentos como o leite não pasteurizado ou derivados podem ser transmissores da brucelose. Para evitar a contaminação, portanto, é preciso tomar cuidados com a proteção individual, usando luvas, avental e botas de borracha nos estabelecimentos de abate e ao lidar com fêmeas no momento do parto.

Os animais que abortaram ou pariram devem passar por higienização, em especial nas áreas mais afetadas. Os locais contaminados também devem ser limpos e desinfetados com produtos apropriados.


 
 
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